•
- O que deve o homem fazer?
- O bem.
- O que é o bem?
- Seja o que for ou onde esteja, isto não é importante. É nosso dever buscá-lo, sempre.
- Estará na razão?
- A razão serve ao poder dos homens sobre outros homens. Muitas vezes, assinala falsos caminhos.
- Na moral?
- Se for a que começa pela fé, servirá ao dever e apontará o caminho. Por ele, irei.
Assim o jovem discípulo do sufi ia enfrentando a difícil sabatina, respondendo com serenidade às questões colocadas, uma após a outra, pelos que o rodeavam. Era numa reunião secreta numa madraça (universidade) de Bagdá, no seu salão hermético e mais nobre, onde pontificam mestres a outros mestres. O evento fora transferido para lá em vista da curiosidade que a trajetória do jovem discípulo de Shakir despertara nos mais fechados círculos islâmicos, e à sabatina concorrera uma inesperada audiência. Houve quem pedisse um intérprete imparcial, ao que Shakir imediatamente consentiu, e ninguém menos que um ex-embaixador do Iraque no Brasil, então catedrático da Língua Portuguesa na madraça, se dispôs a sê-lo.
Para o sabatinado fora um dia inesquecível, que caiu, em nosso calendário, numa quarta-feira, dia oito de dezembro de 2004. Era um dia muito frio, mas ensolarado e bonito.
De manhã, na sala de orações da casa do sufi, ele protagonizara a cerimônia da Chahada, que foi simples e discreta, mas rigorosa, tendo Fadil e um clérigo xiita, amigo do sufi, como as testemunhas regulamentares exigidas pelo rito de conversão. Diante delas e do sufi ele pronunciou três vezes, com convicção, o dito sunita:
lā 'ilaha 'illāl-lāh an Muhammadur rasūlu llāhi (transliteração; em nossa língua: “Não há outra divindade além de Deus [Allah]; Maomé [Muhammad] é o seu profeta”).
Em seguida, fazendo a genuflexão regulamentar direcionada para a esguia palmeira que, da janela frontal da sala de orações, indicava a direção de Meca, todos oraram a surata que fora escolhida pelo novo fiel, a 17ª, “A Viagem Noturna”.
Ao final, veio Zahirah trazendo, numa almofada de seda alva, um broche com uma bela esmeralda losangular incrustada em uma moldura de ouro oval; simbólica homenagem à bandeira do país de origem do jovem discípulo. O sufi prendeu o broche no turbante de Faraj, beijou-o nos dois lados da face, olhou-o bem nos olhos e no broche preso ao turbante, e abraçou-o vigorosamente.
Depois de um almoço frugal servido no varandão da lateral norte do palacete, o iniciado foi levado pela primeira vez a uma mesquita, próxima à casa do sufi, onde fizeram a oração da tarde. A seguir, foram para a madraça. A sabatina começou após a oração do pôr-do-sol, no mesmo salão do evento, com todos os admitidos naquela reunião secreta, cerca de trinta altas personalidades da resistência e do islamismo de Bagdá, sunita e xiita.
Impassível, Shakir acompanhou, orgulhoso, o desempenho do discípulo, que se saiu com elegância das armadilhas que aquelas cobras criadas do pensamento islâmico prepararam para ele. Algumas, inclusive, baixas, como a que um outro sufi armou ao perguntar se o sabatinado tinha certeza de ter se despojado dos vícios que a sua origem ocidental lhe impregnara desde o berço.
- Confundes a minha origem com o comportamento de alguns devassos que vêm governando a minha nação - respondeu, sereno, o jovem. E emendou: - Permita-me desconsiderar a parte equivocada de vossa pergunta. Orgulho-me da minha origem, pois ela está em meu povo; um povo irmão do vosso e que também sofre a perfídia das elites que o governam. Também somos um país invadido, senão pela violência desatada com que invadem o vosso, mas pela mesma estupidez e prepotência. Não sei se me despojei dos vícios comuns aos mortais – os haverá lá como aqui, penso eu -, mas garanto-vos que tudo faço ao meu alcance para manter em meu ser as virtudes que meu nobre povo teria porventura me consignado desde o berço.
Coube a Shakir, que se manteve em silêncio o tempo todo, logo ao perceber a platéia satisfeita e encantada, fazer a última pergunta, depois de quase uma hora de sabatina:
- O que esperas encontrar como Mujahid?
- O esplendor da luz de Deus! - respondeu prontamente o jovem Faraj.
- Faraj Mujahid! Faraj Mujahid! – bradaram todos, reverenciando o iniciado.
Taquinho era um Mujahid.
Capítulo 14
Capítulo 14
Ao retornar da sabatina, Zahirah apresentou ao Mujahid o novo apartamento em que ficaria hospedado, com um quarto muito mais amplo, sala de estar, sofisticada sala de banho toda em mármore branco e varandão exclusivo. Ficava no segundo andar da ala sul do palacete, onde se alinhavam vários outros aposentos semelhantes, tal como num hotel de luxo. Tinha uma vista magnífica para a parte mais nobre do jardim que rodeava a bela arquitetura mourisca do edifício e para toda a cidade de Bagdá. Disse-lhe que ele passara a ser hóspede de honra da casa. Ela mesma havia redecorado o espaço, que era da falecida mãe de Fadil e tinha a predominância da cor laranja, a preferida da antiga moradora. Zahirah conhecia o trauma de Taquinho por aquela cor, a mesma dos uniformes dos prisioneiros de Guantânamo, e tratou de substituir cortinas, estofados, roupas de cama e os detalhes de decoração pelos tons de verde, que sabia ser a cor predileta do novo Mujahid. O guarda-roupa, a escrivaninha, os livros, os equipamentos hospitalares que ainda permaneciam para o atendimento médico, e tudo o mais, foram transferidos para lá. Ao guarda-roupa, foram acrescentados um terno cortado pelo alfaiate do sufi em tecido da escolha de Zahirah, e três gravatas, igualmente escolhidas pela bondosa anfitriã. Ela sugeriu que usasse o terno, num belo tom escuro de jade, e uma gravata ocre com motivos gráficos (arabescos) em ouro, no dia seguinte, quando iria receber uma visita do sufi, logo após o almoço. E o ensaiou mais uma vez nos gestos habituais do salam alakum (Deus esteja contigo), a saudação árabe, que, a partir de então e de acordo com a etiqueta muçulmana, ele faria ao encontrar-se com outros muçulmanos.
No dia seguinte, na hora marcada, Zahirah chegou com o sufi nos novos aposentos do Mujahid. Era a primeira vez que o hóspede/discípulo tinha a honra de receber o anfitrião/mestre em seus aposentos. O sufi, ao ver aquele homem elegante - muito bem vestido, bem barbeado e ostentando o turbante ornado pelo broche de esmeralda -, saudar-lhe no rigor da etiqueta árabe, não pôde evitar compará-lo mentalmente ao trapo humano que ele encontrara num esconderijo da resistência, quando se viram pela primeira vez. E não conteve a satisfação que lhe trouxe aquela transformação. Depois da saudação ritual, sorridente, abraçou fortemente o discípulo.
Zahirah se despediu dos dois e saiu, fechando a porta. O sufi sugeriu que fossem conversar no varandão, onde se assentaram nas confortáveis poltronas de vime que o mobiliavam. Nos céus de Bagdá, via-se uma nuvem de fumo negro subindo de um bairro periférico, ao longe, quase do outro lado da cidade.
- Outro atentado suicida contra um mercado de um bairro pobre – comentou o sufi – acabou de acontecer e é dos grandes; com mais de cinqüenta vítimas inocentes!
- Tenho visto vários na televisão – retrucou o jovem – não podem ser obras de Mujahids, por tudo o que aprendi, sei que não. Dizem que são muçulmanos e Mujahids, falam do Jihad, mas eu não acredito. Quem são os verdadeiros autores dessas atrocidades?
- Você os conhece bem, foi hóspede deles por quase três anos. A CIA é a mais poderosa empresa de terrorismo que já existiu na face da Terra. Ainda se vale de velhas táticas ocidentais para denegrir a nossa cultura, como nas Cruzadas e na Inquisição. É o racismo, a intolerância, enfim, o poder do terror: matanças, torturas, genocídio, o amedrontamento das populações indefesas. Registram-se desde o incêndio da Biblioteca de Alexandria, que insistem em atribuir a nós, muçulmanos, os maiores amantes do livro em todas as épocas. Recentemente, no final do século 19 da Era Cristã, acrescentaram-lhes a face macabra e cruel do sionismo.
- Ainda não pude estudá-lo a fundo, apesar de vê-lo mencionado em vários textos recentes. É uma religião?
- Abdallah I, a quem conheci pessoalmente, que é avô de Hussein, o atual monarca da Jordânia, gostava de ridicularizar a imprensa ocidental quando nos acusava, a nós, árabes, de anti-semitas. Ora, nós, como os judeus, somos também filhos de Sem, o filho de Noé, ou seja, somos semitas. Abdallah afirmava com razão, e meus estudos a respeito confirmam-no, que os judeus sempre foram perseguidos por nações ocidentais e cristãs. Eles mesmos têm de admitir que nunca, desde a Grande Diáspora, desenvolveram-se com tal liberdade e alcançaram tanta importância quanto na Península Ibérica, enquanto esta foi possessão árabe. Com poucas exceções, os judeus viveram durante séculos no Oriente Médio em completa paz e amizade com seus vizinhos árabes. Damasco, Bagdá, Beirute e outros centros árabes sempre incluíram prósperas comunidades judias. Até o início da invasão sionista na Palestina, os judeus receberam de nós um tratamento muito generoso, coisa que jamais ocorrera na Europa cristã. Hoje, pela primeira vez na história, eles começam a sentir os efeitos da resistência árabe ao assalto sionista. A grande maioria está tão ansiosa quanto os árabes para que chegue o fim do conflito. Aqueles que entre nós encontraram lar acolhedor ressentem-se, como nós, da chegada de tantos estrangeiros. Como venho afirmando em meus artigos, o sionismo não é mais que uma doutrina forjada para a manutenção, a qualquer custo, do capitalismo em decadência. E, por conseguinte, dos privilégios destes que se julgam os donos do mundo. Não é religião, pois não tem fundamentos na tradição nem na História. Não é ideologia, pois não se sustenta em idéias lógicas ou científicas. Não se pode dizer que seja movimento político ou cultural judáico, ou de parte do povo judeu, pois de nada lhe serve, só o prejudica, nem o integram somente judeus. É, em verdade, uma fraude, que se disfarça no alegado combate ao anti-semitismo, imposta pelos grupos financistas e empresariais transnacionais, em especial os grandes complexos banqueiros e bélicos, para justificar termos como “guerra preventiva”, “terrorismo”, “eixo do mal” e outras criações de propaganda que enganam a opinião pública ocidental e judaica diante da escalada desumana e belicista em que se viu metido o Império norte-americano. Israel se auto proclama “estado judeu”, mas não é propriamente um país; é a maior base militar dos EUA, fora deles. E os EUA não são exatamente uma nação, mas uma sigla emblemática das elites capitalistas que formam o poder central do Império. O sionismo é, assim, a doutrina remanescente da fracassada política externa desse Império, toscamente redigida para ser a mais cruel manifestação anti-semita e anti-humanista jamais registrada na História. Tem evoluído de tal modo que já se pode falar de sionismo cristão e sionismo muçulmano, pois é integrado basicamente por membros das elites poderosas judias, cristãs e até muçulmanas - como as egípcias, jordanianas e sauditas –, e seus agentes civis, militares e mercenários. A totalidade dos atentados terroristas mais letais que são divulgados com estardalhaço na mídia é obra deles e desta mesma mídia que controlam. Têm por objetivo demonizar o Islã perante a opinião pública mundial e justificar a sua ação bélica contra nós. O 11 de setembro de 2001, em Nova York, é o exemplo mais contundente de tal estratégia.
- Mas quem seria capaz de matar-se assim, dessa forma e por um motivo tão vil?
- Há loucos e desesperados em toda parte. Vendem a alma e a vida com facilidade. E dinheiro é o que não falta ao sionismo, que, hoje, é sinônimo de terrorismo; o verdadeiro terror provocado pela matança, o genocídio e a barbárie que patrocina nos quatro cantos do mundo. Há também os ingênuos e os idealistas. Desde o começo desta guerra, e falo de 1990 para cá, nossos Mujahids não realizaram mais que nove missões estratégicas de martírio, todas dentro de critérios rigorosos e com resultados importantíssimos em favor do Islã. Mas apenas dois deles foram divulgados pelos mais poderosos meios de comunicação, e, mesmo assim, distorcendo completamente os fatos, negando a verdade e minimizando as derrotas militares que sofreram.
Shakir fez uma longa pausa, com o seu olhar fixado na nuvem de fumo no céu de Bagdá. Seu rosto estampava uma preocupação grave e uma profunda tristeza interior. Súbito, se reanimou e retornou ao diálogo com Taquinho:
- Bem, eu não vim para falar disso; vim por dois motivos: comentar sobre seus escritos e introduzi-lo nos propósitos de sua missão. Li todo o seu trabalho até o ponto em que me entregou e quero dizer-lhe que, além de grato, fiquei orgulhoso da sua coragem e do seu talento. Poucos homens eu conheço capazes de enfrentar o que você enfrentou ao redigir sobre a sua estadia em Guantânamo com tanta riqueza de detalhes. Sou um velho que já passou por quase tudo na vida, mas a sua descrição me comoveu a ponto de fazer brotarem lágrimas em meus olhos. Estou certo de que você seria ótimo escritor ou um jornalista excepcional se não lhe tivesse ocorrido o que ocorreu. E fico-lhe muito grato por ter atendido ao meu pedido. Acredito que este documento poderá ser de grande valia para os ocidentais conhecerem um pouco de si mesmos e refletirem mais sobre o que são. Além disso, você retira a máscara de falsidades que foi construída em torno da prisão de Guantânamo desde a data mesma em que os EUA, oficialmente, reconhecem tê-la criado - segundo eles, em janeiro de 2002 -, portanto, meses depois de estar sendo usada secretamente, pelo menos a partir do 11/9. Seu depoimento confirma muitas denúncias bem informadas que vêm se registrando a partir da catástrofe de Nova York até hoje, oferecendo as provas sólidas que lhes faltavam. Confesso-lhe agora que não faço fé nos tribunais nem na capacidade das autoridades ocidentais em rever suas políticas imperialistas. Mas é preciso que acreditemos na História, e ela requer documentos incontestáveis como este seu depoimento. Refletindo mais sobre ele, devo dizer que concordo com todo o seu projeto, e o meu ponto de vista é o de que você deve continuá-lo até o último momento, incluindo nele a informação sobre a sua missão.
- Mas isto não poderia comprometer a resistência e não daria margem para que o usassem como prova de que somos nós os terroristas?
- É possível que sim, e esteja certo de que eu não proporia isto se não fosse você o autor do documento. Penso que você está plenamente capacitado a tratar a questão moral que envolve os fatos de forma a deixar bem claros a essência deles e o real papel dos protagonistas. Você saberá conduzir este memorial para que ele se torne ainda mais importante, mais revelador e mais contundente. Não devemos omitir a verdade quando somos capazes de expô-la com clareza. E você será capaz disso, eu confio em você.
- Quando vou conhecer os detalhes da minha missão?
- Este é o segundo motivo da minha visita. Devo introduzi-lo nela agora e, amanhã, faremos aqui em casa uma reunião secreta com alguns membros da cúpula, na qual lhe serão adiantados os detalhes. Os planos estão em fase final, e é uma missão de primeira grandeza. Teríamos outros Mujahids aptos a executá-la, e eles até gozariam de prioridade pela honra de protagonizarem-na, mas a sabatina de ontem fez a cúpula decidir por você. Parece-me que há também outras razões, as quais ainda desconheço, que nos levaram à sua escolha. Eu mesmo fiquei surpreso quando me comunicaram ontem à noite, pois sei tudo sobre a importância dessa missão.
- Desculpe-me por não conter a minha ansiedade, mas fiquei curiosíssimo.
- O exército dos EUA vem preparando uma força de elite para atuar no front em Bagdá. São 200 oficiais muito bem preparados que passaram três anos na Jordânia internados numa espécie de escola criada exclusivamente para eles, e na qual só se fala o árabe. Lá, nossos costumes, hábitos, cultura e religião foram rigorosamente estudados nos mínimos detalhes, mas com a particularidade de que não foram dirigidos a fazerem-nos iniciados ou adeptos, e sim a torná-los poderosos inimigos do Islã. Terminaram o treinamento no final de novembro, passaram alguns dias com seus familiares nos Estados Unidos e agora estão sendo trazidos para cá. Devem iniciar suas missões já no próximo mês de janeiro. Cada oficial vai comandar um batalhão bem treinado e com experiência local, além de estarem equipados com todo o aparato tecnológico e logístico para varrer Bagdá de ponta a ponta, bairro por bairro, casa por casa, com o objetivo de acabar com o comando central da resistência que já sabem, ou suspeitam, estar em Bagdá. Depois se deslocarão para outras cidades, até que se cumpra a “limpeza” de todo o país. A ordem é de só fazer prisioneiros se estes colaborarem com eles. Os que se negarem serão eliminados. Não serão poupados os locais sagrados, as mesquitas, as madraças, as residências de místicos e clérigos. Nem as daqueles que eles pensam ser seus aliados ou colaboradores, como é o meu caso. Estes homens representam uma real e perigosa ameaça à resistência e ao Islã, eis porque, desde que a nossa Inteligência teve conhecimento do projeto, começamos a formular planos para impedi-los. São 200 homens e mulheres bem armados e preparados para uma guerra de extermínio e que trazem em seus destinos um verdadeiro genocídio contra o nosso povo. Eles poderão, de fato, destruir a nossa resistência armada. O Islã, com a graça de Deus e a nossa fé, haverá de fazer com que tais destinos não se cumpram jamais.
- E quantos deles tocam a mim?
- Por incrível que possa parecer, todos ou quase todos! O excesso de confiança parece tê-los conduzido a um erro grave. O projeto foi realizado sob tal sigilo que eles sequer imaginam que nós tenhamos alguma idéia da sua existência. Por isso, decidiram que a vinda desses oficiais deveria se dar da forma usual para não despertar suspeitas de que algo diferente estaria por vir a Bagdá. Estavam todos aqui ao lado, em Amã, e retornaram aos EUA para depois virem de lá, para Bagdá. Os invasores sabem que acompanhamos todos os seus movimentos, desde que se conduzem para cá e chegam ao país, em qualquer ponto e por qualquer meio de transporte. As tropas frescas que vêm dos EUA chegam normalmente no final de cada ano cristão, de modo a que os substituídos possam passar as festas de Ano Novo com suas famílias. É como uma recompensa aos que lutaram. Em geral, os novos chegam um pouco antes para as trocas de guarda e para estar em condições de assumir efetivamente seus postos logo no início do novo ano. Mas, antes, os novos oficiais e comandantes fazem um almoço de confraternização no restaurante dos oficiais na Zona Verde. O dessa turma já foi marcado para o dia três de janeiro, e os nossos alvos deverão estar todos ou quase todos lá. São militares treinados para agredir o Islã. Lá não estarão crianças, velhos, nem mulheres inocentes. Tais condições nos autorizam ao uso do Jihad. Amanhã, ficaremos cientes de todos os detalhes do plano concebido pela resistência.
Capítulo 15
No dia seguinte, na hora marcada, Zahirah chegou com o sufi nos novos aposentos do Mujahid. Era a primeira vez que o hóspede/discípulo tinha a honra de receber o anfitrião/mestre em seus aposentos. O sufi, ao ver aquele homem elegante - muito bem vestido, bem barbeado e ostentando o turbante ornado pelo broche de esmeralda -, saudar-lhe no rigor da etiqueta árabe, não pôde evitar compará-lo mentalmente ao trapo humano que ele encontrara num esconderijo da resistência, quando se viram pela primeira vez. E não conteve a satisfação que lhe trouxe aquela transformação. Depois da saudação ritual, sorridente, abraçou fortemente o discípulo.
Zahirah se despediu dos dois e saiu, fechando a porta. O sufi sugeriu que fossem conversar no varandão, onde se assentaram nas confortáveis poltronas de vime que o mobiliavam. Nos céus de Bagdá, via-se uma nuvem de fumo negro subindo de um bairro periférico, ao longe, quase do outro lado da cidade.
- Outro atentado suicida contra um mercado de um bairro pobre – comentou o sufi – acabou de acontecer e é dos grandes; com mais de cinqüenta vítimas inocentes!
- Tenho visto vários na televisão – retrucou o jovem – não podem ser obras de Mujahids, por tudo o que aprendi, sei que não. Dizem que são muçulmanos e Mujahids, falam do Jihad, mas eu não acredito. Quem são os verdadeiros autores dessas atrocidades?
- Você os conhece bem, foi hóspede deles por quase três anos. A CIA é a mais poderosa empresa de terrorismo que já existiu na face da Terra. Ainda se vale de velhas táticas ocidentais para denegrir a nossa cultura, como nas Cruzadas e na Inquisição. É o racismo, a intolerância, enfim, o poder do terror: matanças, torturas, genocídio, o amedrontamento das populações indefesas. Registram-se desde o incêndio da Biblioteca de Alexandria, que insistem em atribuir a nós, muçulmanos, os maiores amantes do livro em todas as épocas. Recentemente, no final do século 19 da Era Cristã, acrescentaram-lhes a face macabra e cruel do sionismo.
- Ainda não pude estudá-lo a fundo, apesar de vê-lo mencionado em vários textos recentes. É uma religião?
- Abdallah I, a quem conheci pessoalmente, que é avô de Hussein, o atual monarca da Jordânia, gostava de ridicularizar a imprensa ocidental quando nos acusava, a nós, árabes, de anti-semitas. Ora, nós, como os judeus, somos também filhos de Sem, o filho de Noé, ou seja, somos semitas. Abdallah afirmava com razão, e meus estudos a respeito confirmam-no, que os judeus sempre foram perseguidos por nações ocidentais e cristãs. Eles mesmos têm de admitir que nunca, desde a Grande Diáspora, desenvolveram-se com tal liberdade e alcançaram tanta importância quanto na Península Ibérica, enquanto esta foi possessão árabe. Com poucas exceções, os judeus viveram durante séculos no Oriente Médio em completa paz e amizade com seus vizinhos árabes. Damasco, Bagdá, Beirute e outros centros árabes sempre incluíram prósperas comunidades judias. Até o início da invasão sionista na Palestina, os judeus receberam de nós um tratamento muito generoso, coisa que jamais ocorrera na Europa cristã. Hoje, pela primeira vez na história, eles começam a sentir os efeitos da resistência árabe ao assalto sionista. A grande maioria está tão ansiosa quanto os árabes para que chegue o fim do conflito. Aqueles que entre nós encontraram lar acolhedor ressentem-se, como nós, da chegada de tantos estrangeiros. Como venho afirmando em meus artigos, o sionismo não é mais que uma doutrina forjada para a manutenção, a qualquer custo, do capitalismo em decadência. E, por conseguinte, dos privilégios destes que se julgam os donos do mundo. Não é religião, pois não tem fundamentos na tradição nem na História. Não é ideologia, pois não se sustenta em idéias lógicas ou científicas. Não se pode dizer que seja movimento político ou cultural judáico, ou de parte do povo judeu, pois de nada lhe serve, só o prejudica, nem o integram somente judeus. É, em verdade, uma fraude, que se disfarça no alegado combate ao anti-semitismo, imposta pelos grupos financistas e empresariais transnacionais, em especial os grandes complexos banqueiros e bélicos, para justificar termos como “guerra preventiva”, “terrorismo”, “eixo do mal” e outras criações de propaganda que enganam a opinião pública ocidental e judaica diante da escalada desumana e belicista em que se viu metido o Império norte-americano. Israel se auto proclama “estado judeu”, mas não é propriamente um país; é a maior base militar dos EUA, fora deles. E os EUA não são exatamente uma nação, mas uma sigla emblemática das elites capitalistas que formam o poder central do Império. O sionismo é, assim, a doutrina remanescente da fracassada política externa desse Império, toscamente redigida para ser a mais cruel manifestação anti-semita e anti-humanista jamais registrada na História. Tem evoluído de tal modo que já se pode falar de sionismo cristão e sionismo muçulmano, pois é integrado basicamente por membros das elites poderosas judias, cristãs e até muçulmanas - como as egípcias, jordanianas e sauditas –, e seus agentes civis, militares e mercenários. A totalidade dos atentados terroristas mais letais que são divulgados com estardalhaço na mídia é obra deles e desta mesma mídia que controlam. Têm por objetivo demonizar o Islã perante a opinião pública mundial e justificar a sua ação bélica contra nós. O 11 de setembro de 2001, em Nova York, é o exemplo mais contundente de tal estratégia.
- Mas quem seria capaz de matar-se assim, dessa forma e por um motivo tão vil?
- Há loucos e desesperados em toda parte. Vendem a alma e a vida com facilidade. E dinheiro é o que não falta ao sionismo, que, hoje, é sinônimo de terrorismo; o verdadeiro terror provocado pela matança, o genocídio e a barbárie que patrocina nos quatro cantos do mundo. Há também os ingênuos e os idealistas. Desde o começo desta guerra, e falo de 1990 para cá, nossos Mujahids não realizaram mais que nove missões estratégicas de martírio, todas dentro de critérios rigorosos e com resultados importantíssimos em favor do Islã. Mas apenas dois deles foram divulgados pelos mais poderosos meios de comunicação, e, mesmo assim, distorcendo completamente os fatos, negando a verdade e minimizando as derrotas militares que sofreram.
Shakir fez uma longa pausa, com o seu olhar fixado na nuvem de fumo no céu de Bagdá. Seu rosto estampava uma preocupação grave e uma profunda tristeza interior. Súbito, se reanimou e retornou ao diálogo com Taquinho:
- Bem, eu não vim para falar disso; vim por dois motivos: comentar sobre seus escritos e introduzi-lo nos propósitos de sua missão. Li todo o seu trabalho até o ponto em que me entregou e quero dizer-lhe que, além de grato, fiquei orgulhoso da sua coragem e do seu talento. Poucos homens eu conheço capazes de enfrentar o que você enfrentou ao redigir sobre a sua estadia em Guantânamo com tanta riqueza de detalhes. Sou um velho que já passou por quase tudo na vida, mas a sua descrição me comoveu a ponto de fazer brotarem lágrimas em meus olhos. Estou certo de que você seria ótimo escritor ou um jornalista excepcional se não lhe tivesse ocorrido o que ocorreu. E fico-lhe muito grato por ter atendido ao meu pedido. Acredito que este documento poderá ser de grande valia para os ocidentais conhecerem um pouco de si mesmos e refletirem mais sobre o que são. Além disso, você retira a máscara de falsidades que foi construída em torno da prisão de Guantânamo desde a data mesma em que os EUA, oficialmente, reconhecem tê-la criado - segundo eles, em janeiro de 2002 -, portanto, meses depois de estar sendo usada secretamente, pelo menos a partir do 11/9. Seu depoimento confirma muitas denúncias bem informadas que vêm se registrando a partir da catástrofe de Nova York até hoje, oferecendo as provas sólidas que lhes faltavam. Confesso-lhe agora que não faço fé nos tribunais nem na capacidade das autoridades ocidentais em rever suas políticas imperialistas. Mas é preciso que acreditemos na História, e ela requer documentos incontestáveis como este seu depoimento. Refletindo mais sobre ele, devo dizer que concordo com todo o seu projeto, e o meu ponto de vista é o de que você deve continuá-lo até o último momento, incluindo nele a informação sobre a sua missão.
- Mas isto não poderia comprometer a resistência e não daria margem para que o usassem como prova de que somos nós os terroristas?
- É possível que sim, e esteja certo de que eu não proporia isto se não fosse você o autor do documento. Penso que você está plenamente capacitado a tratar a questão moral que envolve os fatos de forma a deixar bem claros a essência deles e o real papel dos protagonistas. Você saberá conduzir este memorial para que ele se torne ainda mais importante, mais revelador e mais contundente. Não devemos omitir a verdade quando somos capazes de expô-la com clareza. E você será capaz disso, eu confio em você.
- Quando vou conhecer os detalhes da minha missão?
- Este é o segundo motivo da minha visita. Devo introduzi-lo nela agora e, amanhã, faremos aqui em casa uma reunião secreta com alguns membros da cúpula, na qual lhe serão adiantados os detalhes. Os planos estão em fase final, e é uma missão de primeira grandeza. Teríamos outros Mujahids aptos a executá-la, e eles até gozariam de prioridade pela honra de protagonizarem-na, mas a sabatina de ontem fez a cúpula decidir por você. Parece-me que há também outras razões, as quais ainda desconheço, que nos levaram à sua escolha. Eu mesmo fiquei surpreso quando me comunicaram ontem à noite, pois sei tudo sobre a importância dessa missão.
- Desculpe-me por não conter a minha ansiedade, mas fiquei curiosíssimo.
- O exército dos EUA vem preparando uma força de elite para atuar no front em Bagdá. São 200 oficiais muito bem preparados que passaram três anos na Jordânia internados numa espécie de escola criada exclusivamente para eles, e na qual só se fala o árabe. Lá, nossos costumes, hábitos, cultura e religião foram rigorosamente estudados nos mínimos detalhes, mas com a particularidade de que não foram dirigidos a fazerem-nos iniciados ou adeptos, e sim a torná-los poderosos inimigos do Islã. Terminaram o treinamento no final de novembro, passaram alguns dias com seus familiares nos Estados Unidos e agora estão sendo trazidos para cá. Devem iniciar suas missões já no próximo mês de janeiro. Cada oficial vai comandar um batalhão bem treinado e com experiência local, além de estarem equipados com todo o aparato tecnológico e logístico para varrer Bagdá de ponta a ponta, bairro por bairro, casa por casa, com o objetivo de acabar com o comando central da resistência que já sabem, ou suspeitam, estar em Bagdá. Depois se deslocarão para outras cidades, até que se cumpra a “limpeza” de todo o país. A ordem é de só fazer prisioneiros se estes colaborarem com eles. Os que se negarem serão eliminados. Não serão poupados os locais sagrados, as mesquitas, as madraças, as residências de místicos e clérigos. Nem as daqueles que eles pensam ser seus aliados ou colaboradores, como é o meu caso. Estes homens representam uma real e perigosa ameaça à resistência e ao Islã, eis porque, desde que a nossa Inteligência teve conhecimento do projeto, começamos a formular planos para impedi-los. São 200 homens e mulheres bem armados e preparados para uma guerra de extermínio e que trazem em seus destinos um verdadeiro genocídio contra o nosso povo. Eles poderão, de fato, destruir a nossa resistência armada. O Islã, com a graça de Deus e a nossa fé, haverá de fazer com que tais destinos não se cumpram jamais.
- E quantos deles tocam a mim?
- Por incrível que possa parecer, todos ou quase todos! O excesso de confiança parece tê-los conduzido a um erro grave. O projeto foi realizado sob tal sigilo que eles sequer imaginam que nós tenhamos alguma idéia da sua existência. Por isso, decidiram que a vinda desses oficiais deveria se dar da forma usual para não despertar suspeitas de que algo diferente estaria por vir a Bagdá. Estavam todos aqui ao lado, em Amã, e retornaram aos EUA para depois virem de lá, para Bagdá. Os invasores sabem que acompanhamos todos os seus movimentos, desde que se conduzem para cá e chegam ao país, em qualquer ponto e por qualquer meio de transporte. As tropas frescas que vêm dos EUA chegam normalmente no final de cada ano cristão, de modo a que os substituídos possam passar as festas de Ano Novo com suas famílias. É como uma recompensa aos que lutaram. Em geral, os novos chegam um pouco antes para as trocas de guarda e para estar em condições de assumir efetivamente seus postos logo no início do novo ano. Mas, antes, os novos oficiais e comandantes fazem um almoço de confraternização no restaurante dos oficiais na Zona Verde. O dessa turma já foi marcado para o dia três de janeiro, e os nossos alvos deverão estar todos ou quase todos lá. São militares treinados para agredir o Islã. Lá não estarão crianças, velhos, nem mulheres inocentes. Tais condições nos autorizam ao uso do Jihad. Amanhã, ficaremos cientes de todos os detalhes do plano concebido pela resistência.
Capítulo 15
Capítulo 15
Em seu texto, Taquinho mencionou a Chahada e a sabatina, que culminaram com a sua ordenação como Mujahid, como se tivesse recebido um diploma importantíssimo. Isto para dar uma dimensão de importância aos que o lessem com a ótica de avaliação pequeno burguesa e provinciana, como a de seus conterrâneos. E relatou, como uma reunião secreta, o encontro com “um sufi”, sob a mesma ótica, detalhando sobre as roupas com que se vestira e como se barbeara e se preparara para receber, pela primeira vez, informações confidenciais do alto comando da resistência iraquiana; assim demonstrando a confiança que conquistara.
Dona Lourdes não acreditava no que estava lendo. Agora, seus olhos já não derramavam lágrimas: ela sentia orgulho do filho. Como gostaria de tê-lo visto de terno, gravata e turbante no encontro com aquele sufi! Imaginava o filho de bigode e cavanhaque, belo e garboso como o avô Pedro na fotografia que ela guardava (bem escondida, por certo) de quando ele era jovem, igualmente de terno, gravata e turbante, mais ou menos na mesma idade que Taquinho teria naquele momento. Mas veio-lhe em seguida o sobressalto: ela havia visto pela televisão, no dia anterior, logo depois do almoço na casa da amiga viúva, o êxito do filho naquela missão que protagonizara como anônimo e principal ator.
Isto a alarmava terrivelmente, pois não se sentia preparada para o que ia ler. Ia passar às linhas que descreveriam como se engendrou a missão e como e porque ela deve ter sido realizada. Com certeza, nem os invasores daquele pobre país e nenhuma equipe de televisão saberiam disso. No ocidente, ela era única que tinha acesso àquela informação.
o-o-o-o-o-o-o-o-o
No dia seguinte, Fadil levou o novo Mujahid a um cômodo secreto, no subsolo do palacete Lá já estavam o sufi, o clérigo xiita que testemunhou a Chahada, dois comandantes da resistência armada e um membro da Inteligência.. Fizeram as saudações de praxe, as orações do meio dia, e, em seguida, o clérigo preparou o narguilé com esmero ritualístico. Antes de entrarem no assunto, todos fumaram o haxixe em silêncio. Esse rito, Taquinho já sabia, sempre precedia a decisões de grande importância.
O primeiro a tomar a palavra foi o comandante da resistência. Dirige-se diretamente ao Mujahid, sendo traduzido por Fadil frase por frase:
- A importância da missão é de tal ordem que estamos investindo nela praticamente todos os nossos recursos de Inteligência. Estamos dispostos até a abrir mão do nosso mais eficiente agente infiltrado na Zona Verde, cujo codinome é Khalid. O histórico dele, a mesma idade e a semelhança física com você foram fatores decisivos para a escolha do Mujahid. Muhammed, chefe da nossa Inteligência, vai agora lhe informar sobre os detalhes da operação.
Tomou a palavra Muhammed:
- Além da semelhança física, pode-se dizer que vocês são sósias. Outra condição de Khalid, que Deus Todo Poderoso concedeu a esta operação, é o fato de ele ter sido privado do uso da fala. Sua língua foi cortada na época da primeira invasão porque alguns de sua tribo atribuíram a ele a delação de posições ao inimigo. Expulsaram-no da tribo junto com a mãe, e ambos foram feitos prisioneiros dos invasores. Estes os venderam como escravos a um empresário europeu que mora em Bagdá e presta serviços de alimentação às tropas invasoras. Desde a demarcação da Zona Verde, ele obteve a concessão para explorar ali o restaurante dos oficiais, o qual dirige e gerencia pessoalmente, usando Khalid como serviçal. A mãe é empregada da casa dele, no centro de Bagdá, onde mora com o filho num porão.
Muhammed continuou a exposição do plano, mostrando papéis, mapas e fotografias que trouxera numa pasta. Daremos a seguir um resumo de sua explicação:
Duas ou três vezes por semana, a mãe de Khalid sai de casa com o filho, por volta das 11 da manhã, a fim de fazer compras, e depois o acompanha até os portões da Zona Verde. Parte das compras são, em geral, temperos frescos e típicos, que o filho leva para o restaurante, e a outra parte para o consumo residencial, que ela leva para casa. Numa das mercearias que costumam ir, é feita a troca do aparelho celular onde armazenam as informações que passam à resistência.
No dia três de janeiro, que será o “Dia D” da operação, ambos farão compras nesta mercearia e, no banheiro da mesma, Khalid será substituído por Faraj.
Quando Khalid entra com compras na portaria da Zona Verde, estas são sempre objeto de atenção e revista, e a identificação dele fica em segundo plano, praticamente restrita à passagem do cartão magnético numa borboleta e à digitação da senha numa porta de vidro com detector de metais. As compras passam na esteira de raios-x, como nos aeroportos, junto com a bolsa a tiracolo em que ele sempre leva uma garrafa térmica com café e uma merenda que a mãe lhe prepara. Ele não precisa de falar nada, pois todos ali o conhecem, sabem que ele se comunica com as mãos e alguns grunhidos que consegue emitir, e só a mãe é capaz de entendê-lo. De forma que ele sempre entra mudo e sai calado, e durante o trabalho só obedece às ordens que lhe são dadas pelo amo, pessoalmente ou pelo celular.
O trabalho dele limita-se a deixar as compras na despensa, quando as leva, e ir para a adega, ambos no andar térreo do prédio do restaurante, onde o patrão deixa separadas as garrafas de bebidas que devem subir ao restaurante, no andar logo acima. Ele pega as garrafas de seis em seis, uma em cada mão, e quatro postas numa espécie de suspensório de couro onde se prendem quatro bolsas para este fim. O apetrecho fica pendurado num prego, ao lado da porta da adega. Ele o veste para fazer o transporte, passando-o sobre os ombros e ajustando-o com uma fivela na cintura. É um trabalho de burro de carga. Com a carga, ele sobe a escada estreita que chega ao lado do balcão, no andar de cima, sobre o qual dispõe as garrafas para o barman organizá-las nas prateleiras. Em geral, a operação é repetida oito ou dez vezes, até que subam todas as garrafas, e deve terminar antes de o restaurante abrir as portas aos primeiros clientes, o que ocorre sempre ao meio-dia e meia. Tudo parece pensado para que o serviçal não tenha contato com clientes e funcionários, só com o amo. Às vezes, no decorrer do serviço, este usa o celular para ordenar-lhe que suba com mais garrafas, mas isto muito raramente acontece.
Durante a função no andar de cima, Khalid aguarda num depósito anexo à adega, onde come a merenda e ouve música num MP3, até que o amo lhe chame, depois de sair o último cliente, para descer as garrafas que não foram abertas e os cascos das que foram completamente esvaziadas. Feito isto, ele volta ao andar de cima e dá início à limpeza do chão e das mesas, encarregando-se também dos arranjos decorativos que as ornamentam para deixar o salão pronto para o dia seguinte, pois o restaurante, a não ser em ocasiões muito especiais, só abre para o almoço.
Nesse período, ele fica sozinho e é capaz de substituir, sem despertar suspeitas - nem mesmo da vigilância por câmeras de segurança -, os micro-gravadores que camufla nos arranjos decorativos de certas mesas e que são programados para gravarem as conversas dos oficiais, no almoço seguinte. Antes de deixar o serviço, ele usa o banheiro dos funcionários, onde transfere para o seu celular os arquivos gerados, os quais, não raro, trazem informações preciosas à resistência. O turno se encerra lá pelas quatro da tarde, hora em que ele normalmente volta para casa.
A missão de Faraj será rigorosamente ensaiada, nos mínimos detalhes, desde a sua entrada na Zona Verde, disfarçado de Khalid. Este obteve, com o celular, fotos de todo o percurso externo e do interior do restaurante e da adega. A resistência desenhou um mapa do local e conseguiu uma cópia da planta do prédio.
No “Dia D”, Faraj deverá cumprir a primeira parte do serviço e irá para o local onde Khalid fica ouvindo música, sentado num banquinho, na área de tanques anexa à adega onde fica também o depósito de cascos vazios, que o amo guarda para vender a falsificadores de vinhos e bebidas raras. Naquele local não há câmeras de segurança. Ali, num bueiro em desuso, Khalid vai esconder cinco garrafas de vinho preparadas, quatro com o primeiro composto do líquido explosivo e uma com o segundo composto. Os compostos serão paulatinamente levados na garrafa térmica de Khalid, misturados com café.
As quatro garrafas com o primeiro composto são frascos de um vinho raríssimo, o predileto do comandante-em-chefe das forças invasoras. Só é servido em ocasiões de gala ou quando alguma alta autoridade de governos aliados é recebida por ele no restaurante. Foram escolhidas por causa do formato inconfundível, e porque têm dois rótulos, um de cada lado, um em chinês e outro em português, o que as torna mais fáceis de serem identificadas pelo Mujahid. O nome do vinho é “O Esplendor do Império”, mas o comandante-em-chefe só o chama de “The Power of Empire”.
Ao ouvir isto, o sufi pediu um aparte. Disse que sabia a história desse vinho. Era produzido em Macau, na China, desde o século XVI, por jesuítas portugueses que ali plantaram o vinhedo e o fabricaram. O envelhecimento era feito em depósitos flutuantes, mar adentro, o que agregava uma qualidade especial e muito apreciada a seu sabor, por causa do permanente balanço das ondas. Parou de ser produzido há pouco mais de vinte anos devido às condições climáticas na região, que inviabilizaram o vinhedo. Cada garrafa custava hoje uma pequena fortuna.
Dele conta-se uma anedota, bem conhecida nos meios da diplomacia portuguesa: o vinho possui dois rótulos e tem este nome porque, quando os jesuítas recebiam chineses, eles o serviam exibindo apenas o lado da garrafa com o rótulo em chinês, em homenagem ao Império local. Quando recebiam portugueses, faziam o mesmo com o outro lado da garrafa. Então, alguém pergunta: e se lhes chegavam as duas delegações ao mesmo tempo? Aí, eles as dispunham numa grande mesa, uma delegação de cada lado, e serviam o vinho exibindo o rótulo certo para cada lado, de forma tal que os portugueses só viam os rótulos em português e os chineses só viam os em chinês. Os portugueses gostam de contá-la para se gabar de suas virtudes diplomáticas, o que, por sinal, disse o sufi, a anedota parece representar muito bem. Mas não era a piada típica de portugueses que os brasileiros costumavam contar, completou, olhando para Faraj, que estava risonho como os demais ouvintes, apesar de tê-la entendido aos pedaços, pois foi contada em árabe; apenas a última frase lhe fora repetida em português.
- Com certeza - falou o agente da Inteligência, provocando risos – o comandante-em-chefe já estaria pensando num terceiro rótulo para o vinho.
A intervenção de Shakir relaxou o ambiente até então um pouco tenso, e a todos aliviou a tranqüilidade e o bom humor do Mujahid. Este sugeriu, tentando se expressar num árabe claudicante, que aquele nome inspirasse o da operação, alterando-o para “O Esplendor do Islã”. Depois de Fadil ter repetido quase tudo em bom árabe para os que não puderam entender o de Faraj, a idéia foi aprovada por unanimidade e todos pronunciaram a expressão, um após o outro: (em árabe), “O Esplendor do Islã”.
Capítulo 16
Dona Lourdes não acreditava no que estava lendo. Agora, seus olhos já não derramavam lágrimas: ela sentia orgulho do filho. Como gostaria de tê-lo visto de terno, gravata e turbante no encontro com aquele sufi! Imaginava o filho de bigode e cavanhaque, belo e garboso como o avô Pedro na fotografia que ela guardava (bem escondida, por certo) de quando ele era jovem, igualmente de terno, gravata e turbante, mais ou menos na mesma idade que Taquinho teria naquele momento. Mas veio-lhe em seguida o sobressalto: ela havia visto pela televisão, no dia anterior, logo depois do almoço na casa da amiga viúva, o êxito do filho naquela missão que protagonizara como anônimo e principal ator.
Isto a alarmava terrivelmente, pois não se sentia preparada para o que ia ler. Ia passar às linhas que descreveriam como se engendrou a missão e como e porque ela deve ter sido realizada. Com certeza, nem os invasores daquele pobre país e nenhuma equipe de televisão saberiam disso. No ocidente, ela era única que tinha acesso àquela informação.
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No dia seguinte, Fadil levou o novo Mujahid a um cômodo secreto, no subsolo do palacete Lá já estavam o sufi, o clérigo xiita que testemunhou a Chahada, dois comandantes da resistência armada e um membro da Inteligência.. Fizeram as saudações de praxe, as orações do meio dia, e, em seguida, o clérigo preparou o narguilé com esmero ritualístico. Antes de entrarem no assunto, todos fumaram o haxixe em silêncio. Esse rito, Taquinho já sabia, sempre precedia a decisões de grande importância.
O primeiro a tomar a palavra foi o comandante da resistência. Dirige-se diretamente ao Mujahid, sendo traduzido por Fadil frase por frase:
- A importância da missão é de tal ordem que estamos investindo nela praticamente todos os nossos recursos de Inteligência. Estamos dispostos até a abrir mão do nosso mais eficiente agente infiltrado na Zona Verde, cujo codinome é Khalid. O histórico dele, a mesma idade e a semelhança física com você foram fatores decisivos para a escolha do Mujahid. Muhammed, chefe da nossa Inteligência, vai agora lhe informar sobre os detalhes da operação.
Tomou a palavra Muhammed:
- Além da semelhança física, pode-se dizer que vocês são sósias. Outra condição de Khalid, que Deus Todo Poderoso concedeu a esta operação, é o fato de ele ter sido privado do uso da fala. Sua língua foi cortada na época da primeira invasão porque alguns de sua tribo atribuíram a ele a delação de posições ao inimigo. Expulsaram-no da tribo junto com a mãe, e ambos foram feitos prisioneiros dos invasores. Estes os venderam como escravos a um empresário europeu que mora em Bagdá e presta serviços de alimentação às tropas invasoras. Desde a demarcação da Zona Verde, ele obteve a concessão para explorar ali o restaurante dos oficiais, o qual dirige e gerencia pessoalmente, usando Khalid como serviçal. A mãe é empregada da casa dele, no centro de Bagdá, onde mora com o filho num porão.
Muhammed continuou a exposição do plano, mostrando papéis, mapas e fotografias que trouxera numa pasta. Daremos a seguir um resumo de sua explicação:
Duas ou três vezes por semana, a mãe de Khalid sai de casa com o filho, por volta das 11 da manhã, a fim de fazer compras, e depois o acompanha até os portões da Zona Verde. Parte das compras são, em geral, temperos frescos e típicos, que o filho leva para o restaurante, e a outra parte para o consumo residencial, que ela leva para casa. Numa das mercearias que costumam ir, é feita a troca do aparelho celular onde armazenam as informações que passam à resistência.
No dia três de janeiro, que será o “Dia D” da operação, ambos farão compras nesta mercearia e, no banheiro da mesma, Khalid será substituído por Faraj.
Quando Khalid entra com compras na portaria da Zona Verde, estas são sempre objeto de atenção e revista, e a identificação dele fica em segundo plano, praticamente restrita à passagem do cartão magnético numa borboleta e à digitação da senha numa porta de vidro com detector de metais. As compras passam na esteira de raios-x, como nos aeroportos, junto com a bolsa a tiracolo em que ele sempre leva uma garrafa térmica com café e uma merenda que a mãe lhe prepara. Ele não precisa de falar nada, pois todos ali o conhecem, sabem que ele se comunica com as mãos e alguns grunhidos que consegue emitir, e só a mãe é capaz de entendê-lo. De forma que ele sempre entra mudo e sai calado, e durante o trabalho só obedece às ordens que lhe são dadas pelo amo, pessoalmente ou pelo celular.
O trabalho dele limita-se a deixar as compras na despensa, quando as leva, e ir para a adega, ambos no andar térreo do prédio do restaurante, onde o patrão deixa separadas as garrafas de bebidas que devem subir ao restaurante, no andar logo acima. Ele pega as garrafas de seis em seis, uma em cada mão, e quatro postas numa espécie de suspensório de couro onde se prendem quatro bolsas para este fim. O apetrecho fica pendurado num prego, ao lado da porta da adega. Ele o veste para fazer o transporte, passando-o sobre os ombros e ajustando-o com uma fivela na cintura. É um trabalho de burro de carga. Com a carga, ele sobe a escada estreita que chega ao lado do balcão, no andar de cima, sobre o qual dispõe as garrafas para o barman organizá-las nas prateleiras. Em geral, a operação é repetida oito ou dez vezes, até que subam todas as garrafas, e deve terminar antes de o restaurante abrir as portas aos primeiros clientes, o que ocorre sempre ao meio-dia e meia. Tudo parece pensado para que o serviçal não tenha contato com clientes e funcionários, só com o amo. Às vezes, no decorrer do serviço, este usa o celular para ordenar-lhe que suba com mais garrafas, mas isto muito raramente acontece.
Durante a função no andar de cima, Khalid aguarda num depósito anexo à adega, onde come a merenda e ouve música num MP3, até que o amo lhe chame, depois de sair o último cliente, para descer as garrafas que não foram abertas e os cascos das que foram completamente esvaziadas. Feito isto, ele volta ao andar de cima e dá início à limpeza do chão e das mesas, encarregando-se também dos arranjos decorativos que as ornamentam para deixar o salão pronto para o dia seguinte, pois o restaurante, a não ser em ocasiões muito especiais, só abre para o almoço.
Nesse período, ele fica sozinho e é capaz de substituir, sem despertar suspeitas - nem mesmo da vigilância por câmeras de segurança -, os micro-gravadores que camufla nos arranjos decorativos de certas mesas e que são programados para gravarem as conversas dos oficiais, no almoço seguinte. Antes de deixar o serviço, ele usa o banheiro dos funcionários, onde transfere para o seu celular os arquivos gerados, os quais, não raro, trazem informações preciosas à resistência. O turno se encerra lá pelas quatro da tarde, hora em que ele normalmente volta para casa.
A missão de Faraj será rigorosamente ensaiada, nos mínimos detalhes, desde a sua entrada na Zona Verde, disfarçado de Khalid. Este obteve, com o celular, fotos de todo o percurso externo e do interior do restaurante e da adega. A resistência desenhou um mapa do local e conseguiu uma cópia da planta do prédio.
No “Dia D”, Faraj deverá cumprir a primeira parte do serviço e irá para o local onde Khalid fica ouvindo música, sentado num banquinho, na área de tanques anexa à adega onde fica também o depósito de cascos vazios, que o amo guarda para vender a falsificadores de vinhos e bebidas raras. Naquele local não há câmeras de segurança. Ali, num bueiro em desuso, Khalid vai esconder cinco garrafas de vinho preparadas, quatro com o primeiro composto do líquido explosivo e uma com o segundo composto. Os compostos serão paulatinamente levados na garrafa térmica de Khalid, misturados com café.
As quatro garrafas com o primeiro composto são frascos de um vinho raríssimo, o predileto do comandante-em-chefe das forças invasoras. Só é servido em ocasiões de gala ou quando alguma alta autoridade de governos aliados é recebida por ele no restaurante. Foram escolhidas por causa do formato inconfundível, e porque têm dois rótulos, um de cada lado, um em chinês e outro em português, o que as torna mais fáceis de serem identificadas pelo Mujahid. O nome do vinho é “O Esplendor do Império”, mas o comandante-em-chefe só o chama de “The Power of Empire”.
Ao ouvir isto, o sufi pediu um aparte. Disse que sabia a história desse vinho. Era produzido em Macau, na China, desde o século XVI, por jesuítas portugueses que ali plantaram o vinhedo e o fabricaram. O envelhecimento era feito em depósitos flutuantes, mar adentro, o que agregava uma qualidade especial e muito apreciada a seu sabor, por causa do permanente balanço das ondas. Parou de ser produzido há pouco mais de vinte anos devido às condições climáticas na região, que inviabilizaram o vinhedo. Cada garrafa custava hoje uma pequena fortuna.
Dele conta-se uma anedota, bem conhecida nos meios da diplomacia portuguesa: o vinho possui dois rótulos e tem este nome porque, quando os jesuítas recebiam chineses, eles o serviam exibindo apenas o lado da garrafa com o rótulo em chinês, em homenagem ao Império local. Quando recebiam portugueses, faziam o mesmo com o outro lado da garrafa. Então, alguém pergunta: e se lhes chegavam as duas delegações ao mesmo tempo? Aí, eles as dispunham numa grande mesa, uma delegação de cada lado, e serviam o vinho exibindo o rótulo certo para cada lado, de forma tal que os portugueses só viam os rótulos em português e os chineses só viam os em chinês. Os portugueses gostam de contá-la para se gabar de suas virtudes diplomáticas, o que, por sinal, disse o sufi, a anedota parece representar muito bem. Mas não era a piada típica de portugueses que os brasileiros costumavam contar, completou, olhando para Faraj, que estava risonho como os demais ouvintes, apesar de tê-la entendido aos pedaços, pois foi contada em árabe; apenas a última frase lhe fora repetida em português.
- Com certeza - falou o agente da Inteligência, provocando risos – o comandante-em-chefe já estaria pensando num terceiro rótulo para o vinho.
A intervenção de Shakir relaxou o ambiente até então um pouco tenso, e a todos aliviou a tranqüilidade e o bom humor do Mujahid. Este sugeriu, tentando se expressar num árabe claudicante, que aquele nome inspirasse o da operação, alterando-o para “O Esplendor do Islã”. Depois de Fadil ter repetido quase tudo em bom árabe para os que não puderam entender o de Faraj, a idéia foi aprovada por unanimidade e todos pronunciaram a expressão, um após o outro: (em árabe), “O Esplendor do Islã”.
Capítulo 16
Capítulo 16
- A quinta garrafa - continuou o chefe da resistência em sua explanação, sempre com a tradução de Fadil - será a de um vinho comum, e terá sobre a boca uma medida de volume e um pequeno funil. Você vai retirar primeiramente do bueiro, uma a uma, as quatro garrafas do primeiro composto e colocá-las dentro do tanque, retirando as rolhas com que Khalid vai tampá-las. Depois, usando o funil e a medida, misturará uma só medida do segundo composto em cada uma. A solução estará pronta para explodir, bastando para isso uma pequena e única fagulha de eletricidade, portanto, a partir daí há que ter cuidado em cada gesto.
Ele continuou a explicação, que voltamos a dar em resumo:
Faraj vestirá o suspensório, ajustando-o bem, e pendurará no pescoço um cordão com um escapulário cristão que encontrará no escaninho de Khalid, perto do tanque, junto com quatro fios de carregadores de MP3, preparados para serem plugados no escapulário, numa das pontas, e a outra para ser introduzida dentro da garrafa. Ele então colocará as garrafas abertas nas bolsas do suspensório, plugará as pontas amarelas dos fios no escapulário e enfiará a ponta vermelha dentro de cada garrafa até tocar o fundo. Depois, retirará a bateria do MP3, que é pequena, redonda e quase do tamanho de uma moeda, e a encaixará por dentro da tampa do escapulário, mantendo-o aberto na palma da mão.
Daí em diante, só terá de andar com calma até a escada, sempre mantendo na palma da mão o escapulário aberto, subir devagar a escada e entrar no restaurante. Isto deverá acontecer exatamente à uma hora da tarde, quando o salão estará completamente lotado. Sem parar um só segundo, mas também sem se apressar nem fazer movimentos bruscos, Faraj seguirá na direção da coluna central do edifício, atento nas pessoas à sua volta. Qualquer movimento que perceber sendo feito na sua direção, o levará a fechar o escapulário, mesmo se não tiver alcançado a coluna central. Ao fazê-lo, a bateria provocará uma fagulha nas quatro garrafas. Será uma explosão arrasadora.
Faraj ouviu tudo com atenção e pediu licença para fazer três observações.
A primeira era sobre as câmeras de segurança. Elas poderiam detectá-lo no percurso e ele então ser impedido de subir a escada? Neste caso, apesar de lhe parecer óbvio, se via obrigado a perguntar: deveria explodir-se ali mesmo, onde estivesse?
A resposta, dada pelo chefe da Inteligência, informava-lhe que diante da importância do evento provavelmente haveria um segurança na entrada de serviço do restaurante que dava para a adega, a escada e a dispensa. Desde que ele não demonstrasse insegurança ou motivos de suspeição, nem as câmeras nem o segurança atinariam para algo suspeito. Pensariam que ele levava uma nova requisição de garrafas para cima. Seria bastante que caminhasse naturalmente até o andar de cima. O tempo que gastará em todo o percurso deverá ser em torno de dois a três minutos, até o topo da escada. Ali, sim, sua presença causaria estranheza. Mas ele já teria os alvos bem à sua frente e o sucesso da operação estaria assegurado. Contudo, se ele pudesse chegar até a coluna central, o colapso do edifício era certo, e quem não fosse eliminado pela explosão o seria pela queda do prédio, que possui três andares. No terceiro, funciona o escritório administrativo dos negócios do empresário. A coluna fica localizada a dez metros da saída da escada, à frente do balcão do bar, em linha reta e sem obstáculos, no meio do largo corredor principal que se abre entre as mesas e ao longo do qual estará montado o suntuoso buffet, que naquela hora estará quase sem ninguém ao redor, pois a maioria dos comensais já teria se servido.
- De qualquer forma - continuou - após estar com o aparato pronto para explodir, não há volta atrás. Se for interceptado no percurso, onde quer que esteja, não existe outra saída senão provocar a explosão. Segundo os cálculos, mesmo ocorrendo no andar inferior, ela causará danos catastróficos, ainda que não totalmente letais como os que pretendemos produzir. Uma vez alcançado o ponto de gatilho, já podemos considerar a operação um sucesso. O mais difícil e arriscado será chegar a este ponto.
A segunda observação dizia respeito à condição do Mujahid para subir a escada oito ou dez vezes na primeira fase da operação. Todos ali sabiam que ele passara por um processo de tortura em câmara frigorífica que quase liquidou com as articulações do seu corpo. Além do mais, seu aparelho respiratório fora muito prejudicado e ele tinha fôlego curto. Reconhecia que vinha melhorando e até se recuperando, mas não saberia dizer, com certeza, se seria fisicamente capaz de executar aquela parte do plano.
Desta vez foi Fadil quem lhe respondeu, em português. Seus médicos já haviam sido consultados sobre isto, e a solução foi a de um tratamento prévio com cortisona aplicada diretamente nas articulações. Tomará, também, pouco antes, excitantes farmacêuticos que muito vão ajudá-lo em seu ânimo e em suas forças físicas. Apesar de a cortisona e tais produtos lhe serem proibidos, seus usos não farão diferença, pois os efeitos colaterais só começam a se manifestar entre 12 e 24 horas depois da aplicação ou ingestão.
- Contudo - emendou Fadil - esta será a única parte do plano que não podemos arriscar ensaiar e fazer testes completos. Qualquer prejuízo à sua saúde ou à sua condição física inviabilizará a execução do plano. Só saberemos no “Dia D”, mas confiamos em sua força espiritual e na sua capacidade de superar desafios, o que, aliás, já nos demonstrou mais que o suficiente. Se não confiássemos no seu sucesso, não estaríamos aqui.
A terceira era sobre as conseqüências do seu ato. Não a respeito de sua própria pessoa, isto não lhe importava e nem pedia nada, já conhecia a recompensa e era imensamente grato pelo privilégio. Mas, quais seriam as respostas que esperavam dos invasores depois de tamanha derrota, se o plano fosse bem sucedido? Isto, sim, o preocupava muito, pois conhece bem o inimigo e sabe da sua ferocidade, da sua força brutal e implacável.
Foi agora Shakir a dar a resposta, igualmente em português.
Esperavam, sim, uma resposta violenta e contundente; a sede de vingança e o ódio a alimentariam. Porém, não seria a primeira vez que enfrentavam tal perigo. Bastava a lembrança do que acontecera em Fallujah e em outras circunstâncias menos conhecidas, inclusive na própria Bagdá.
- Quanto aos estragos que nos farão por vingança, nós não somos capazes de avaliar, mas podemos imaginá-los terrivelmente. Ocorre que a ferocidade, a brutalidade, o terror, o ódio e a vingança não são as forças que os fazem temíveis para nós – falou com serenidade o sufi - Somos experientes em enfrentá-las, não só desse inimigo, mas de outros, muitos outros, inclusive os que já vão longe nos tempos históricos. O que os faria temíveis para nós é se alcançassem o conhecimento das nossas forças mais poderosas e desvendassem o maior segredo da nossa resistência – a energia divina do Islã! Nossa resistência só é vitoriosa por esse motivo. Lutamos uma guerra desigual, mas nós conhecemos as forças deles, e eles desconhecem as nossas. É de onde tiramos as diferenças. Consideramos esta nova estratégia do inimigo a mais perfeita que apresentaram, eis porque temos de destruí-la antes que seja posta em prática no campo de batalha. Eles cometeram um erro do qual não podemos deixar de nos valer, e ambos não teremos a segunda chance. Da nossa parte, se perdermos a oportunidade, outra não se apresentará que possa liquidá-los de uma só vez; saberão que temos conhecimento de seus planos e não colocarão todos os ovos novamente numa só cesta. Do lado deles, ao perder esses oficiais, não haverá como formarem novos, e todo o enorme investimento que empenharam em tempo e em recursos humanos, materiais e financeiros lhes terá sido em vão, sem possibilidades de reavê-los. Não nos importa quantos bombardeios terríveis assestem contra nossas cabeças, nem quantas chacinas e crimes possam cometer a mais do que já cometeram. Eles saberão que, perdida essa batalha, terão perdido a guerra. Tal vitória, portanto, é a conquista mais importante para nós neste momento, e é o que motiva a operação “O Esplendor Islã”.
Capítulo 17
Ele continuou a explicação, que voltamos a dar em resumo:
Faraj vestirá o suspensório, ajustando-o bem, e pendurará no pescoço um cordão com um escapulário cristão que encontrará no escaninho de Khalid, perto do tanque, junto com quatro fios de carregadores de MP3, preparados para serem plugados no escapulário, numa das pontas, e a outra para ser introduzida dentro da garrafa. Ele então colocará as garrafas abertas nas bolsas do suspensório, plugará as pontas amarelas dos fios no escapulário e enfiará a ponta vermelha dentro de cada garrafa até tocar o fundo. Depois, retirará a bateria do MP3, que é pequena, redonda e quase do tamanho de uma moeda, e a encaixará por dentro da tampa do escapulário, mantendo-o aberto na palma da mão.
Daí em diante, só terá de andar com calma até a escada, sempre mantendo na palma da mão o escapulário aberto, subir devagar a escada e entrar no restaurante. Isto deverá acontecer exatamente à uma hora da tarde, quando o salão estará completamente lotado. Sem parar um só segundo, mas também sem se apressar nem fazer movimentos bruscos, Faraj seguirá na direção da coluna central do edifício, atento nas pessoas à sua volta. Qualquer movimento que perceber sendo feito na sua direção, o levará a fechar o escapulário, mesmo se não tiver alcançado a coluna central. Ao fazê-lo, a bateria provocará uma fagulha nas quatro garrafas. Será uma explosão arrasadora.
Faraj ouviu tudo com atenção e pediu licença para fazer três observações.
A primeira era sobre as câmeras de segurança. Elas poderiam detectá-lo no percurso e ele então ser impedido de subir a escada? Neste caso, apesar de lhe parecer óbvio, se via obrigado a perguntar: deveria explodir-se ali mesmo, onde estivesse?
A resposta, dada pelo chefe da Inteligência, informava-lhe que diante da importância do evento provavelmente haveria um segurança na entrada de serviço do restaurante que dava para a adega, a escada e a dispensa. Desde que ele não demonstrasse insegurança ou motivos de suspeição, nem as câmeras nem o segurança atinariam para algo suspeito. Pensariam que ele levava uma nova requisição de garrafas para cima. Seria bastante que caminhasse naturalmente até o andar de cima. O tempo que gastará em todo o percurso deverá ser em torno de dois a três minutos, até o topo da escada. Ali, sim, sua presença causaria estranheza. Mas ele já teria os alvos bem à sua frente e o sucesso da operação estaria assegurado. Contudo, se ele pudesse chegar até a coluna central, o colapso do edifício era certo, e quem não fosse eliminado pela explosão o seria pela queda do prédio, que possui três andares. No terceiro, funciona o escritório administrativo dos negócios do empresário. A coluna fica localizada a dez metros da saída da escada, à frente do balcão do bar, em linha reta e sem obstáculos, no meio do largo corredor principal que se abre entre as mesas e ao longo do qual estará montado o suntuoso buffet, que naquela hora estará quase sem ninguém ao redor, pois a maioria dos comensais já teria se servido.
- De qualquer forma - continuou - após estar com o aparato pronto para explodir, não há volta atrás. Se for interceptado no percurso, onde quer que esteja, não existe outra saída senão provocar a explosão. Segundo os cálculos, mesmo ocorrendo no andar inferior, ela causará danos catastróficos, ainda que não totalmente letais como os que pretendemos produzir. Uma vez alcançado o ponto de gatilho, já podemos considerar a operação um sucesso. O mais difícil e arriscado será chegar a este ponto.
A segunda observação dizia respeito à condição do Mujahid para subir a escada oito ou dez vezes na primeira fase da operação. Todos ali sabiam que ele passara por um processo de tortura em câmara frigorífica que quase liquidou com as articulações do seu corpo. Além do mais, seu aparelho respiratório fora muito prejudicado e ele tinha fôlego curto. Reconhecia que vinha melhorando e até se recuperando, mas não saberia dizer, com certeza, se seria fisicamente capaz de executar aquela parte do plano.
Desta vez foi Fadil quem lhe respondeu, em português. Seus médicos já haviam sido consultados sobre isto, e a solução foi a de um tratamento prévio com cortisona aplicada diretamente nas articulações. Tomará, também, pouco antes, excitantes farmacêuticos que muito vão ajudá-lo em seu ânimo e em suas forças físicas. Apesar de a cortisona e tais produtos lhe serem proibidos, seus usos não farão diferença, pois os efeitos colaterais só começam a se manifestar entre 12 e 24 horas depois da aplicação ou ingestão.
- Contudo - emendou Fadil - esta será a única parte do plano que não podemos arriscar ensaiar e fazer testes completos. Qualquer prejuízo à sua saúde ou à sua condição física inviabilizará a execução do plano. Só saberemos no “Dia D”, mas confiamos em sua força espiritual e na sua capacidade de superar desafios, o que, aliás, já nos demonstrou mais que o suficiente. Se não confiássemos no seu sucesso, não estaríamos aqui.
A terceira era sobre as conseqüências do seu ato. Não a respeito de sua própria pessoa, isto não lhe importava e nem pedia nada, já conhecia a recompensa e era imensamente grato pelo privilégio. Mas, quais seriam as respostas que esperavam dos invasores depois de tamanha derrota, se o plano fosse bem sucedido? Isto, sim, o preocupava muito, pois conhece bem o inimigo e sabe da sua ferocidade, da sua força brutal e implacável.
Foi agora Shakir a dar a resposta, igualmente em português.
Esperavam, sim, uma resposta violenta e contundente; a sede de vingança e o ódio a alimentariam. Porém, não seria a primeira vez que enfrentavam tal perigo. Bastava a lembrança do que acontecera em Fallujah e em outras circunstâncias menos conhecidas, inclusive na própria Bagdá.
- Quanto aos estragos que nos farão por vingança, nós não somos capazes de avaliar, mas podemos imaginá-los terrivelmente. Ocorre que a ferocidade, a brutalidade, o terror, o ódio e a vingança não são as forças que os fazem temíveis para nós – falou com serenidade o sufi - Somos experientes em enfrentá-las, não só desse inimigo, mas de outros, muitos outros, inclusive os que já vão longe nos tempos históricos. O que os faria temíveis para nós é se alcançassem o conhecimento das nossas forças mais poderosas e desvendassem o maior segredo da nossa resistência – a energia divina do Islã! Nossa resistência só é vitoriosa por esse motivo. Lutamos uma guerra desigual, mas nós conhecemos as forças deles, e eles desconhecem as nossas. É de onde tiramos as diferenças. Consideramos esta nova estratégia do inimigo a mais perfeita que apresentaram, eis porque temos de destruí-la antes que seja posta em prática no campo de batalha. Eles cometeram um erro do qual não podemos deixar de nos valer, e ambos não teremos a segunda chance. Da nossa parte, se perdermos a oportunidade, outra não se apresentará que possa liquidá-los de uma só vez; saberão que temos conhecimento de seus planos e não colocarão todos os ovos novamente numa só cesta. Do lado deles, ao perder esses oficiais, não haverá como formarem novos, e todo o enorme investimento que empenharam em tempo e em recursos humanos, materiais e financeiros lhes terá sido em vão, sem possibilidades de reavê-los. Não nos importa quantos bombardeios terríveis assestem contra nossas cabeças, nem quantas chacinas e crimes possam cometer a mais do que já cometeram. Eles saberão que, perdida essa batalha, terão perdido a guerra. Tal vitória, portanto, é a conquista mais importante para nós neste momento, e é o que motiva a operação “O Esplendor Islã”.
Capítulo 17
Capítulo 17
O leitor já sabe que nossa narrativa não é a mesma do texto de Taquinho, nem é extraída exclusivamente de seus escritos. Neles, o jovem autor concentra-se num relato objetivo dos fatos e de forma a não comprometer a resistência islâmica, os que o ajudaram e com quem colaborou.
No que definimos lá atrás como a terceira parte do seu texto, o sufi não existe como tal; é mencionado só pelo codinome como um dos líderes da resistência ou como “meu preceptor”. Assim também, o palacete de Shakir é o “esconderijo da resistência” e Zahirah “uma guerrilheira”. Tudo é descrito e relatado sem detalhes que possam levar a identificação de pessoas, de cenários e localizações precisas, a não ser os que não os comprometem e estão relacionados com os propósitos da redação.
Tratou José Eustáquio Raghid Varella de redigir um memorial, inclusive para fins de prova judicial, cuja saga pudesse ser cotejada com fatos históricos, notórios e pessoais por onde transitaram suas vicissitudes e aventuras, além de poder ser comprovada em farta documentação paralela, concordante com as informações que ali declara e jura como verdadeiras. Nessa terceira e última parte do documento, por razões óbvias, o autor é o único protagonista identificável. Num anexo ao texto principal, dois coadjuvantes declaram que se identificariam como testemunhas, se a tal fossem chamados por juízo imparcial.
Além disso, ele se propôs também a fazer uma defesa da causa e da cultura islâmicas, aplicando a moral e as bases da religião em que fora iniciado na análise dos fatos, na fundamentação das razões e na argumentação crítica. Não economizou citações do Alcorão e de vários eminentes autores islâmicos e ocidentais para sustentar razões, fundamentar opiniões e apoiar argumentos, seja em favor da causa que ali defendia, seja para subsidiar moral e jurisprudência, seja para reivindicar justiça e paz.
Por tais motivos, dona Lourdes, a não ser por algumas sutilezas que lograra captar nas entrelinhas, nos achados subliminares de raras passagens ou nas cartas anexadas ao relato documental, não teve acesso à melhor parte da nossa história. Aquela em que Taquinho, vivendo no palacete do sufi, cercado de cordialidade, respeito, admiração e humanidade, passou pela sua segunda metamorfose. A primeira, em Guantânamo, pôde ser relatada por ele nos detalhes, e estes nós optamos por não penetrá-los. Mas, da segunda, aquela que mais confortaria o coração de uma mãe ao se inteirar dos sofrimentos por que passara o seu filho, ela apenas tomara conhecimento que algo de fato importante e positivo ocorrera, mas só na imaginação ela poderia se aproximar um pouco do que exatamente ocorrera, e como.
Ela não ficou sabendo do grau de amizade dele com o sufi e com Fadil, da ternura e da dança de Zahirah, do haxixe, das leituras das “Mil e uma noites” e de tantas outras obras primas, dos aposentos onde se hospedara o filho, dos belos jardins que os rodeavam, da nobreza mourisca daquela família e da sua residência, nem de muitos outros pormenores de que pudemos desfrutar naquelas passagens, e ela não. Em raras passagens, Taquinho pode descrever algo mais que um sumário dos fatos, com mais detalhes sobre como exatamente lhe ocorreram, e o leitor se lembrará daquele em que ele estava de terno, gravata e turbante depois de ordenado Mujahid, que tanto a comoveu.
Eis porque, a ponto de finalizar a penosa leitura do documento, a pobre mãe se via embaralhada em completa confusão mental. Ela se sabia intelectualmente incapaz de alcançar toda aquela informação, composta com erudição, cultura e conhecimentos muito acima daqueles a que porventura ela tivera acesso em toda a sua vida. Orgulhava-se do filho ter alcançado tal destreza, nunca duvidou de que ele tivera esse talento, mas, mesmo assim, ficou surpresa. Porém, sua formação católica, a moral provinciana e os preconceitos com que construíra sua pobre informação sobre as coisas e o mundo, faziam-na receosa para ousar um julgamento sobre o que lera e sobre o que se passara com o filho.
Nós vamos deixá-la, por enquanto, em sua amarga solidão, a noite entrando em altas horas, sentada na mesa diante dos papéis do filho, pensativa e atônita ao mesmo tempo, depois de quase 20 horas de dedicação ininterrupta à leitura, repetindo-a muitas vezes nas passagens mais complexas, ou a ela inacessíveis, para tentar buscar-lhes o entendimento pleno, a maioria com pouco ou nenhum êxito. A única luz acesa na modesta casa, a atmosfera densa e silenciosa que lhe envolvia o espírito, a excitação, a angústia e a insônia.
Voltemos aos fatos de Bagdá.
Capítulo 18
No que definimos lá atrás como a terceira parte do seu texto, o sufi não existe como tal; é mencionado só pelo codinome como um dos líderes da resistência ou como “meu preceptor”. Assim também, o palacete de Shakir é o “esconderijo da resistência” e Zahirah “uma guerrilheira”. Tudo é descrito e relatado sem detalhes que possam levar a identificação de pessoas, de cenários e localizações precisas, a não ser os que não os comprometem e estão relacionados com os propósitos da redação.
Tratou José Eustáquio Raghid Varella de redigir um memorial, inclusive para fins de prova judicial, cuja saga pudesse ser cotejada com fatos históricos, notórios e pessoais por onde transitaram suas vicissitudes e aventuras, além de poder ser comprovada em farta documentação paralela, concordante com as informações que ali declara e jura como verdadeiras. Nessa terceira e última parte do documento, por razões óbvias, o autor é o único protagonista identificável. Num anexo ao texto principal, dois coadjuvantes declaram que se identificariam como testemunhas, se a tal fossem chamados por juízo imparcial.
Além disso, ele se propôs também a fazer uma defesa da causa e da cultura islâmicas, aplicando a moral e as bases da religião em que fora iniciado na análise dos fatos, na fundamentação das razões e na argumentação crítica. Não economizou citações do Alcorão e de vários eminentes autores islâmicos e ocidentais para sustentar razões, fundamentar opiniões e apoiar argumentos, seja em favor da causa que ali defendia, seja para subsidiar moral e jurisprudência, seja para reivindicar justiça e paz.
Por tais motivos, dona Lourdes, a não ser por algumas sutilezas que lograra captar nas entrelinhas, nos achados subliminares de raras passagens ou nas cartas anexadas ao relato documental, não teve acesso à melhor parte da nossa história. Aquela em que Taquinho, vivendo no palacete do sufi, cercado de cordialidade, respeito, admiração e humanidade, passou pela sua segunda metamorfose. A primeira, em Guantânamo, pôde ser relatada por ele nos detalhes, e estes nós optamos por não penetrá-los. Mas, da segunda, aquela que mais confortaria o coração de uma mãe ao se inteirar dos sofrimentos por que passara o seu filho, ela apenas tomara conhecimento que algo de fato importante e positivo ocorrera, mas só na imaginação ela poderia se aproximar um pouco do que exatamente ocorrera, e como.
Ela não ficou sabendo do grau de amizade dele com o sufi e com Fadil, da ternura e da dança de Zahirah, do haxixe, das leituras das “Mil e uma noites” e de tantas outras obras primas, dos aposentos onde se hospedara o filho, dos belos jardins que os rodeavam, da nobreza mourisca daquela família e da sua residência, nem de muitos outros pormenores de que pudemos desfrutar naquelas passagens, e ela não. Em raras passagens, Taquinho pode descrever algo mais que um sumário dos fatos, com mais detalhes sobre como exatamente lhe ocorreram, e o leitor se lembrará daquele em que ele estava de terno, gravata e turbante depois de ordenado Mujahid, que tanto a comoveu.
Eis porque, a ponto de finalizar a penosa leitura do documento, a pobre mãe se via embaralhada em completa confusão mental. Ela se sabia intelectualmente incapaz de alcançar toda aquela informação, composta com erudição, cultura e conhecimentos muito acima daqueles a que porventura ela tivera acesso em toda a sua vida. Orgulhava-se do filho ter alcançado tal destreza, nunca duvidou de que ele tivera esse talento, mas, mesmo assim, ficou surpresa. Porém, sua formação católica, a moral provinciana e os preconceitos com que construíra sua pobre informação sobre as coisas e o mundo, faziam-na receosa para ousar um julgamento sobre o que lera e sobre o que se passara com o filho.
Nós vamos deixá-la, por enquanto, em sua amarga solidão, a noite entrando em altas horas, sentada na mesa diante dos papéis do filho, pensativa e atônita ao mesmo tempo, depois de quase 20 horas de dedicação ininterrupta à leitura, repetindo-a muitas vezes nas passagens mais complexas, ou a ela inacessíveis, para tentar buscar-lhes o entendimento pleno, a maioria com pouco ou nenhum êxito. A única luz acesa na modesta casa, a atmosfera densa e silenciosa que lhe envolvia o espírito, a excitação, a angústia e a insônia.
Voltemos aos fatos de Bagdá.
Capítulo 18
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